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Um mês sem Maduro: O que mudou e o que permanece igual na Venezuela?

Há um mês, em 3 de janeiro, a Venezuela acordou com o som de helicópteros e explosões, marcando o início de uma nova era política. Nicolás Maduro foi capturado em uma operação dos Estados Unidos e levado para Nova York, acusado de tráfico de drogas. Desde então, a vice-presidente Delcy Rodríguez assumiu o comando do […]

Há um mês, em 3 de janeiro, a Venezuela acordou com o som de helicópteros e explosões, marcando o início de uma nova era política. Nicolás Maduro foi capturado em uma operação dos Estados Unidos e levado para Nova York, acusado de tráfico de drogas. Desde então, a vice-presidente Delcy Rodríguez assumiu o comando do país, navegando em águas turbulentas de pressão americana e discurso chavista.

A liderança de Rodríguez tem sido caracterizada por uma tênue linha entre as exigências de Washington e a manutenção das bases do chavismo. Mudanças significativas, como a reaproximação com os EUA, a abertura do setor petroleiro e o anúncio de uma anistia geral, alteraram o cenário político venezuelano. Resta saber o quanto essas mudanças são genuínas e o quanto são ditadas pela influência externa.

A intervenção americana, que resultou na captura de Maduro e na morte de quase 100 pessoas, difere de ações anteriores. Em vez de uma ruptura total, observa-se uma “estabilidade tutelada”, segundo Guillermo Tell Aveledo, professor de Estudos Políticos da Universidade Metropolitana. A Venezuela, agora sob a influência direta de Washington, busca um novo rumo. Conforme informação divulgada pelas fontes, Trump chamou Rodríguez de “formidável” e a convidou para a Casa Branca, sinalizando uma mudança nas relações diplomáticas. A nova chefe da missão diplomática americana, Laura Dogu, já afirmou que a “transição” faz parte da agenda bilateral.

Reforma Petrolífera e o Retorno das Empresas Privadas

Um dos pilares da transformação venezuelana é a reforma na lei do petróleo. Analistas atribuem essa mudança à pressão dos Estados Unidos. A nova legislação, na prática, revoga a nacionalização de 1976 e o modelo estatista imposto por Hugo Chávez. Empresas privadas agora podem operar de forma independente, sem a obrigatoriedade de participação minoritária da estatal PDVSA.

O objetivo do governo Trump é atrair novamente petroleiras americanas, como a Chevron, para o país. A nova lei oferece condições mais favoráveis, com a redução de royalties, simplificação de impostos e o fim da exclusividade na exploração primária. Especialistas estimam que a Venezuela necessite de aproximadamente US$ 150 bilhões para reerguer sua indústria petrolífera, historicamente afetada por corrupção e má gestão.

Trump também assumiu o controle de parte das vendas de petróleo venezuelano no mercado internacional, sem os descontos impostos pelo embargo de 2019. A primeira operação desse tipo rendeu US$ 500 milhões, demonstrando o potencial econômico da retomada das relações comerciais.

Anistia Geral e a Sombra da Impunidade

Delcy Rodríguez anunciou também uma anistia geral, aguardando votação no Parlamento. A medida, que promete a libertação de presos políticos, gera expectativas e apreensão. Familiares de detidos celebram a notícia, gritando “Liberdade, liberdade!” do lado de fora das prisões.

Além disso, foi anunciado o fechamento do Helicoide, prisão denunciada há anos como centro de torturas. A expectativa é que a anistia resulte na libertação de centenas de presos políticos. Segundo a ONG Foro Penal, até o momento, 687 pessoas continuavam detidas por motivos políticos. Contudo, o diretor da ONG, Alfredo Romero, alerta que “Anistia, em princípio, significa esquecimento, não perdão”, rejeitando qualquer medida que resulte em impunidade.

A Persistência do Discurso Chavista e o Medo Sutil

Apesar das mudanças, a retórica “anti-imperialista” do chavismo ainda ecoa, especialmente nas Forças Armadas. O partido governista organiza marchas frequentes contra o que chama de “sequestro” de Maduro, e a TV estatal exibe músicas pedindo sua libertação. Imagens de Maduro e Cilia Flores foram projetadas em um show de luzes com drones no Forte Tiuna, local bombardeado durante a incursão americana, onde ele se declarou “prisioneiro de guerra”.

Apesar da diminuição do medo imposto por Maduro, a crítica ao governo ainda ocorre em sussurros. A “estabilidade tutelada” impõe um novo cenário, onde as decisões parecem cada vez mais alinhadas com os interesses de Washington, mantendo o chavismo no poder, mas sob uma influência direta e constante.

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