A Justiça da Bahia determinou a conversão das prisões temporárias em preventivas para quatro advogados alvos da Operação Sintonia de Gravata, que investiga a articulação ilegal entre profissionais do direito e lideranças de facções criminosas que atuam dentro e fora do sistema prisional baiano. A decisão ocorreu após audiências de custódia realizadas em Salvador. Com a mudança na condição judicial, Izabela da Silva de Oliveira, Luã Santos da Costa, Maria Mariana Batista de Oliveira e Tamires Felix Alves Silva deixaram a sede do Departamento Especializado de Investigação e Repressão ao Narcotráfico (Denarc) e foram transferidos para unidades do sistema prisional.
Outros dois defensores investigados na mesma ação, Ícaro Cardoso Viana e Fernanda Oliveira Borges, foram detidos no município de Serrinha, fazendo com que as suas respectivas audiências de custódia ficassem sob a responsabilidade do juízo daquela comarca. A operação, que corre sob segredo de Justiça, cumpriu ordens judiciais expedidas pela 1ª Vara Criminal da Comarca de Eunápolis, englobando 15 mandados de busca e apreensão em cidades como Salvador, Lauro de Freitas, Camaçari, Feira de Santana, Serrinha e Barreiras. No total, dez advogados foram capturados, sendo o último localizado escondido em um imóvel em Marcionílio Souza. A ação também atingiu 12 detentos que já cumpriam pena e tiveram novos mandados de prisão formalizados.
De acordo com o Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas (Gaeco) do Ministério Público da Bahia, o esquema consistia no uso das prerrogativas da advocacia para facilitar o tráfico de entorpecentes, o comércio de armas de fogo e a transmissão de ordens de execuções e sequestros. Gravações audiovisuais autorizadas pela Justiça e capturadas nos parlatórios de presídios de segurança máxima expuseram o modus operandi do grupo. Entre setembro de 2025 e janeiro de 2026, os profissionais foram flagrados anotando balanços financeiros e instruções criminosas ditadas pelos presos, transportando as diretrizes das quadrilhas escondidas em suas roupas íntimas para burlar as revistas das unidades prisionais.
As investigações detalham o vínculo dos advogados com frentes de grandes organizações como o Comando Vermelho (CV), o Bonde do Maluco (BDM) e o Terceiro Comando Puro (TCP). A apuração aponta que Maria Tereza Novaes Martins e Maria Mariana Batista de Oliveira atendiam aos interesses de Victor de Freitas Silva, o “Da Jega”, chefe do CV em Feira de Santana. Maria Mariana também é ligada a Fabio Santana Oliveira, o “Panda”, e José Lucas Silva Rocha, o “Índio”, que comandam a mesma facção em Capim Grosso e Eunápolis. Já Izabela da Silva de Oliveira atuava para Averaldo Ferreira da Silva Filho, o “Averaldinho”, liderança do BDM na capital. Outros nomes como Luã Santos da Costa e Tamires Felix Alves Silva prestavam serviços para chefes do BDM como Leandro da Conceição Santos Fonseca, o “Léo Gringo”, e Décio Douglas Silva Oliveira, o “Vaqueiro”, que também era atendido por Ícaro Cardoso Viana. Por fim, Fernanda Oliveira Borges prestava suporte a Marlos Araújo Souza Junior, conhecido como “Bolão”, liderança do TCP em Senhor do Bonfim, enquanto as conexões de Luan Mascarenhas de Souza, Raiza da Silva e Joanderson Almeida dos Santos continuam sendo analisadas.

Os registros obtidos pelas autoridades revelam ações explícitas dos envolvidos. O advogado Ícaro Cardoso Viana foi gravado recebendo coordenadas para buscar armamentos com familiares de um detento e fazendo a contabilidade de substâncias ilícitas através de termos disfarçados e controle por cheques. Fernanda Oliveira Borges foi flagrada retirando bilhetes de suas vestes e anotando dados sobre cobranças violentas de dívidas e planos de sequestro. Em um dos episódios mais emblemáticos, Maria Mariana Batista de Oliveira aparece chorando ao relatar a um detento a morte de um comparsa em um confronto policial ocorrido no Rio de Janeiro e, em seguida, recebe orientações sobre a localização de uma carabina, armazenamento de munições e métodos de embalagem de cocaína para a comercialização.
Em resposta às prisões, a Associação dos Advogados Criminalistas da Bahia (AACB), que representa as advogadas Tamires Felix Alves Silva e Izabela da Silva de Oliveira, manifestou preocupação com os rumos da operação. A entidade alegou que a defesa não teve acesso completo aos autos do processo, impossibilitando uma avaliação técnica das gravações e da cadeia de custódia das provas. A associação também criticou a espetacularização do caso, a falta de contemporaneidade para a aplicação das prisões preventivas e levantou questionamentos sobre a legalidade das escutas ambientais de 60 dias nos parlatórios, argumentando que a medida pode ter violado de forma indiscriminada o sigilo profissional de outros advogados que não eram alvo das investigações.
A seccional baiana da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-BA) informou que acompanhou de perto o cumprimento dos mandados judiciais por meio de sua comissão de direitos e prerrogativas para garantir as garantias legais da profissão. A presidência da OAB-BA acionou a procuradoria jurídica da instituição para obter acesso formal ao inquérito junto ao Tribunal de Justiça. O órgão destacou que a documentação será enviada ao Tribunal de Ética e Disciplina (TED) para que sejam tomadas as providências administrativas necessárias, o que pode incluir a suspensão preventiva do exercício profissional dos advogados citados após a devida análise do direito de defesa.
